“Estranho seria se eu não me apaixonasse por você
O sal viria doce para os novos lábios
Colombo procurou as Índias mas a terra avistou em você
O som que ouço são as gírias do seu vocabulário [...]”
Dizem que as melhores coisa da nossa vida acontecem por
acaso, sem que a gente precise planejar nada. Realmente, devo admitir que sim,
isto é verdade, porém posso assegurar que se a gente quiser, com muita vontade
e carinho, podemos tornar um dia perfeito, uma data especial, momentos
inesquecíveis.
Eu tenho um dia desses guardado aqui comigo, dia 07/12/2012,
um dia que vai ficar pra sempre na lembrança de muita gente.
Sempre quis demonstrar o amor que sinto por ela, acho que
isso é importante numa relação, sempre fiz isso através das palavras,
escrevendo textos, e tinha conseguido êxito, mas eu queria algo a mais,
escrever é muito fácil pra gente, natural. Eu queria algo mais forte, além de
um texto, que pudesse dar uma boa surpresa ao vivo, algo que pudesse ser visto
por muita gente.
E dessa idéia surgiu a música. Eu, ela e quase todo mundo
que aparenta ser normal, somos apaixonados pela música, por músicas boas, de
qualidade. Desde o começo do namoro algumas canções passaram a fazer parte da
nossa história, uma trilha sonora de nossas vidas. Eu gosto de cantar, o
problema é que quase ninguém de boa audição gosta de me ouvir. Inclusive ela,
sempre que eu arriscava cantarolar um trechinho de qualquer música ela arrumava
um jeito de me impedir, às vezes colocando a mão em minha boca, às vezes me
dando um beijo, enfim, ela nunca me ouviu cantar uma música se quer. E eu
escolhi a música como surpresa, gosto de desafios. Só faltava saber onde iria
cantar, quando e como fazer as pessoas conseguirem me ouvir. Surgiu um curso de
técnica vocal na escola e ali enxerguei uma oportunidade, me matriculei no
curso e fiz aulas de canto, como se a técnica fosse compensar a minha falta de qualidade
da voz. Depois sugeri ao professor que fizéssemos uma apresentação do resultado
de nosso trabalho, sugeri também o evento: Versiprosa. Várias pessoas nos
assistindo, o palco que me faltava - já visando minha declaração para minha
amada - ele aceitou, ficou animadíssimo. Daí nasceu o sonho, e desse dia em
diante comecei a planejar tudo, escolhi a música All Star de Nando Reis, uma de
nossas músicas, com certeza ela iria gostar. Eu até comentei pra ela que
haveria uma apresentação do curso e pedi pra ela arriscar qual música eu
cantaria pra ela se fosse cantar uma música um dia e ela escolheu justamente
All Star. Não toquei mais no assunto, para cair em esquecimento e não estragar
a surpresa, o tempo e a greve da escola se encarregaram de fazer isso. Muito
tempo depois, com o fim da greve, se aproximava então a data do evento. Comecei
a planejar cada detalhe do meu show particular de 3 minutos, convidei uma amiga
dela para tocar, e pedi para uma querida amiga minha se encarregar de ficar com
as flores. E ensaiei, ensaiei, ensaiei, ensaiei e ensaiei, minha mãe, meu irmão
e os vizinhos que o digam. Todos os dias na hora do banho eu cantava All Star,
e imaginava o momento. Faltava uma coisa, contar essa história para a
organizadora do evento. Esperei o momento certo (que não era tão certo) e fui
falar com ela, fui fazer o rodeio da conversa, sem ir direto ao ponto, ir
convencendo ela aos poucos, fui com a conversa furada da idéia de apresentar
nossos trabalhos no Versiprosa, e ela diretamente me explicou que a idéia era
boa mas não seria possível porque as tais músicas não teriam nada haver com o
tema do evento. Naquela hora eu não tive argumentos, realmente eu não tinha
pensado nisso. O que é que a música All Star de Nando Reis tem haver com o
centenário de Jorge Amado? Isso mesmo... Nada! Pensei em dizer que foi a música
que Jorge Amado cantou para Zélia Gattai antes de morrer, aí lembrei que a
música só veio depois deles. A verdade era que as duas coisas não têm nada
haver uma com a outra. A professora ainda me advertiu que naquele momento não
podia conversar porque tinha uma turma pra dar aula. Sem argumentos, abaixei a
cabeça e deixei ela ir. Lembro que o resto daquele dia foi triste, vi meu sonho
descendo pelo ralo. E agora como, quando farei minha declaração de amor? O que
eu direi para as pessoas que iriam me ajudar, que iriam assistir, que eu mesmo
garanti que haveria a música? Depois de muito pensar, cismei que tinha de haver
outra saída, naquela mesma noite esperei de vigília a Professora Coordenadora
do evento, ficar on line no Facebook (é isso mesmo, temos facebook, sou um
escritor moderno, não é um texto copiado de Caio Fernando Abreu, Mario
Quintana, Shakespeare, se bem que isso, todos vocês devem ter percebido).
Quando ela deu as caras, começamos a conversa e fui direto ao ponto, contei o
que queria fazer, como iria ser, cada detalhe, e a minha tristeza por o meu
plano não poder tocar a diante, sou bom com dramas, nasci dramático, sou
dramático por natureza, ela não hesitou e afirmou: “Claros que você pode fazer
isso sim! Abriremos uma exceção, é uma boa idéia, será lindo!”. As palavras
dela me fizeram recuperar o dia perdido. Fui dormir feliz. Com quase tudo
pronto, faltava ainda só uma coisa, e a mais importante, convencer a minha musa
inspiradora a estar na platéia sem que ela soubesse ou se quer desconfiasse de
nada. E nem imaginei o quanto seria difícil, ela se negava, tive que apelar,
dizer que algo de muito importante iria acontecer, uma surpresa e ela não
poderia faltar. Eu não deixei ela me dar desculpinhas. Enfim ela aceitou.
Estava tudo pronto, tudo, menos eu. Ainda havia de matar meu medo de cantar. Quando
imaginava a declaração, tinha tanta confiança em mim mesmo, que eu havia esquecido
completamente do meu medo de cantar. Eu era capaz de fazer muitas coisas em
público: atuar, talvez falar, mas cantar era um problema, eu tinha plena
convicção de que não sabia cantar e isso poderia me fazer travar no palco, não
conseguir pronunciar uma palavra se quer. Entretanto a música era fácil, e eu
já havia cantado ela milhares de vezes, cantá-la de trás pra frente seria
moleza. Alguns “amigos” (da onça), que conheciam meu super talento musical
(ironia), na tentativa de me ajudar (mentira) me diziam: “Você vai cantar?!?!”
“Tem certeza?”. Eu não dei ouvidos a eles, pelo contrário, tinha que mostrar a
minha voz... cof, cof (tossi enquanto escrevi a última frase). Mas os mais
importantes, os amigos de verdade, a menina – Nathalia Limeira – que iria tocar
pra mim, eles me incentivaram, me deram força. E eu aceitei o desafio.
Chegou o dia, preciso também lembrar que um dia antes
havíamos apresentado a peça do meu grupo, que escrevi e atuei junto com a minha
Família Construção Arte, o dia 7, uma
sexta-feira, era o dia do resultado da classificação das peças e as declamações
de texto da coletânea, que inclusive os meus e o dela (Polyana) foram
selecionados. Eu tinha várias coisas para esperar daquele dia, mas foquei
somente na minha música, o resto não importaria tanto, pelo menos naquele dia.
O tempo foi passando e minha hora chegando, fiquei separado dela, pra que ela
ficasse um pouco chateada, em dúvida, sem poder me perguntar nada, para que a surpresa
fosse ainda melhor. Conforme o tempo passava meu nervosismo aumentava. Lembro
que olhei tremendo para a minha amiga Larissa e perguntei a ela se algo iria
dar errado (como se ela pudesse responder), ela sorriu me disse que não, que
não havia nada pra dar errado, daria tudo certo. Gostei das palavras e as
assumi como uma verdade absoluta.
A professora responsável pelo evento deu a deixa da minha
entrada, anunciou para a platéia que um aluno faria a apresentação de um
trabalho de Técnica Vocal elaborado na escola, sabia que era eu, ela me chamou
ao palco, eu levantei e fui. Eu já havia subido os degraus do palco do
Auditório Oscar Sátyro dezenas de vezes diferentes, para várias ocasiões e
nunca fiquei tão nervoso como naquele dia, minhas pernas, meus braços, meus
dedos tremiam. Fui até meu lugar no palco, nem consegui regular a altura do meu
microfone de tão nervoso que estava, Nathalia já havia plugado os cabos no
violão, já estava pronta, a platéia ansiosa, o tempo voou naquele instante. Ela
me perguntou se eu estava pronto, o certo seria dizer que não, que ela
esperasse mais uma hora, quem sabe duas, um tempo para que eu pudesse beber
água, me acalmar, mas estavam todos esperando, tinha que ser ali e agora, e sem
outra alternativa, logo depois que ela perguntou, respondi: “Estou”.
A música começou a tocar, e minha mente não parava de
pensar, sentia as câmeras voltadas para mim, senti que naquele momento todos
queriam me ver, me ouvir. E eu pensava: “Não posso entrar errado na música! Não
posso errar o tom! Não posso travar! Não posso esquecer a letra! E se as
pessoas vaiarem? E se as pessoas vaiarem e jogarem coisas? E se as pessoas
vaiarem, jogarem coisas e me tirarem do palco antes de terminar a música? Eu
não posso cantar feio! Eu não posso passar vergonha! Tudo tem que dar certo!
Tudo tem que dar certo!”
Até que hora de cantar chegou, e minha voz meio atrapalhada
saiu, eu estava completamente travado de medo, em pé no palco, com o pescoço
levemente abaixado para me aproximar do microfone e as mãos cruzadas para trás.
Cantei as primeiras frases da música e não senti nenhum tomate batendo no meu
corpo, não havia ninguém me vaiando. Então fui olhar pra ela, minha ouvinte
especial, foi fácil encontrá-la no meio da multidão, ela sabia a letra tanto
quanto eu, seu sorriso, meio chorado, meio feliz, totalmente fofo, era o mais
lindo de todo auditório, e foi nele que eu foquei meu olhar a música inteira.
Percebi que na verdade não me importaria a opinião de ninguém, era pra ela que
eu estava cantando, e ela estava gostando, elogios e críticas não fariam
diferença alguma. O medo foi embora, descruzei os meus braços, relaxei meu
corpo e curti o momento, aquele momento tão planejado e aguardado. Senti a
magia da música, sabia que aquele momento era ímpar. Não era apenas uma
declaração de amor para ela, era uma demonstração para todo mundo que mesmo nos
dias de hoje, o amor ainda existe, que homens românticos e príncipes encantados
(as vezes não tão encantados assim) ainda existem, ainda que só naquele
momento, naquela canção. Todas as namoradas, se não mulheres, daquele auditório
queriam ser ela naquele momento, mesmo sem pensar nisso. Eu queria mostrar o
quanto a amo, que realmente sou diferente de todos os outros, queria mostrar o
que sou capaz de fazer por ela, pelo nosso amor. As pessoas balançavam os
braços, pra um lado e para o outro, cantavam comigo mesmo sem saber a letra,
tiravam fotos. Percebi que tinha cantado a segunda parte da música no começo
dela e que estava repetindo a segunda parte, pensei no que fazer, parei de
cantar, lembrei que era pra ela e ela nem ligaria pra isso, sorri do meu erro e
voltei a cantar. A música acabou. Eu tinha ensaiado tanta coisa pra dizer
naquele momento, mas tava tão nervoso, tão eufórico, que esqueci de tudo e
falei algo que nem me lembro mais, algo explicando as pessoas que a professora
tinha mentido (uma boa mentira) que não havia nenhuma apresentação de trabalho
de técnica vocal, que se existisse alguma coisa assim, eu seria o último a ser
indicado. Que na verdade eu cantei aquela música para minha namorada que se
encontrava na platéia. Devia ter dito que era surpresa, nessa hora ela se
levantou (levantaram ela a força – amigas) e veio até o palco com seu lindo
vestido listrado de preto e branco. Larissa trouxe as flores, as pessoas
gritavam: “Beija! Beija!”. Eu entreguei as flores e nos beijamos (várias vezes
pra foto). Saímos do palco de mãos dadas, agradeci o público e sai com o
sentimento de dever cumprido. Naquele mesmo dia ainda concorri e ganhei alguns
prêmios, mas nada tinha tanto valor. Como eu mesmo havia dito a ela, o maior
prêmio Deus já havia me dado, era o seu amor. O evento acabou e fomos ao ponto,
enquanto seu ônibus não passava, eu a abraçava e a beijava, felizes como num
conto de fadas real, apaixonados como no começo de tudo, apesar de todos os
erros, deu tudo certo. Éramos testemunhas de um dia lindo, inesquecível.
Em seus braços, naquele momento, tinha certeza de que era a
hora perfeita para o mundo acabar.
“[...] Estranho é gostar tanto do seu All Star azul
Estranho é pensar que o bairro das laranjeiras
Satisfeito sorri, quando chego ali
E entro no elevador
Aperto 12 que é o seu andar
Não vejo a hora de te encontrar
E continuar aquela conversa
Que não terminamos ontem
Ficou pra hoje”

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